Referência
25 anos analisando o comportamento da sociedade
Referência na área de pesquisas, o IPO está presente em grandes momentos da história pelotense e do país
Carlos Queiroz -
Desde sua fundação em 8 de maio de 1996, o Instituto Pesquisas de Opinião (IPO) tem participado de diversos momentos importantes da história local, estadual e até mesmo nacional. Com sedes em Pelotas e Porto Alegre, recentemente o instituto esteve presente com a Universidade Federal de Pelotas (UFPel) na realização da pesquisa Epicovid-19, o maior estudo epidemiológico sobre o coronavírus no país.
A ideia de criar o IPO surgiu dentro do Instituto de Sociologia e Política da UFPel, quando Elis Radmann, fundadora da instituição, ainda era estudante de ciências sociais e participou da coordenação de pesquisa do referendo “Monarquia ou República” em 1993. A partir daí, ainda na faculdade, como bolsista coordenou estudos acerca da população, em especial o comportamento eleitoral. Três anos depois, enquanto a sociedade passava por discussões importantes como a abertura do comércio de Pelotas aos sábados à tarde e aos domingos. Não havendo um instituto de pesquisas para saber a opinião da população sobre este e outros assuntos, já formada Elis funda o IPO que logo de início realizou o estudo sobre este caso. Em seguida vieram levantamentos sobre o consumo dos meios de comunicação, as privatizações entre outros temas em evidência no momento.
Em seus 25 anos de atividade, o IPO realizou pesquisas para os mais diferentes seguimentos, auxiliando através da ciência a tomada de decisões. Na bagagem, estão levantamentos como o Estudo Eleitoral Brasileiro e a Pesquisa Social Brasileira em 2000, cujo os dados foram utilizados na construção do livro “A cabeça do Brasileiro” escrito por Alberto Carlos Almeida e publicado em 2007. Ao longo das páginas são tratados temas como ética, sexualidade, o famoso “jeitinho”, cor e raça, política, entre outros. Elis relembra ainda o maior estudo sobre direitos humanos do país que foi realizado pelo instituto e encomendado pela Presidência da República, na época, sob o comando de Dilma Rousseff. Mesmo finalizado, o levantamento não teve o alcance desejado, pois foi publicado no momento em que a presidente sofreu o impeachment e o foco foi para este assunto.
Participação em momentos históricos
Mas nem todas as pesquisas possuem o mesmo grau de facilidade para a aplicação das perguntas. Outro grande marco na história do instituto é um estudo realizado em Porto Alegre a pedido do governo do Estado que mapeou quase cinco mil casas no bairro Paternon, região considerada perigosa. Elis relembra que foi necessário pedir uma autorização aos responsáveis pelo tráfico para entrar no local. Durante os três meses em que estiveram no bairro, a ordem era: “Se a bala comer, vocês precisam sair quando a gente [traficantes] mandar”.
Independente do nível da pesquisa, seja municipal, estadual ou nacional, o coração e a gestão das pesquisas sempre são feitas em Pelotas, quando partem daqui muitos profissionais formados na UFPel e a Universidade Católica de Pelotas (UCPel) com a missão de coordenar os levantamentos em outras regiões. Ao todo, 20 pessoas fazem parte do instituto, seja em Pelotas ou na outra sede que fica em Porto Alegre, fundada em 1998. São feitas pesquisas nas áreas sociais e politicas ou coorporativas e de mercado, neste caso, os principais clientes são gaúchos que possuem atuação em nível nacional e, através de um levantamento especializado, mostram os caminhos que devem ser seguidos.
Ao longo dos anos muita coisa mudou, tanto a forma das pessoas pensarem, como a tecnologia que proporcionou agilidade e aperfeiçoamento na coleta de informações. Outra mudança foi na metodologia de análise da realidade. Deixa de tratar como público-alvo e cria-se uma “persona” a partir das informações obtidas. “Nos tornamos um instituto de referência para campanhas de governo, campanhas de deputados entre outras. Em janeiro, fizemos uma pesquisa sobre as grandes decisões da Assembleia para o pós-pandemia. Acabamos entrando em toda estrutura de mercado e de politica do Estado como profissionais de investigação social”, comenta Elis.
A gerente de pesquisa do instituto, Gisele Rodrigues, 35 anos, fala sobre o impacto das pesquisas na organização social do país. “A ciência é fundamental para nosso trabalho que é feito com base em dados e informações da realidade. Nossa função é fazer a leitura da sociedade de forma científica nos mais diferentes aspectos e os resultados vão impactar na vida das pessoas dependendo de que está conduzindo as informações que tem”, comenta a gerente. Colaboradora do instituto há 18 anos, Gisele entrou na instituição ainda como estagiária e, desde então, foi evoluindo até o cargo que atua hoje. Para ela, as duas pesquisas que mais lhe marcaram foi a Pesquisa Social Brasileira, sua primeira trabalhando para o Instituto, e a Epicovid devido a relevância neste momento histórico.
Reconhecimento no setor acadêmico
Recentemente, o IPO esteve presente na execução da Epicovid-19, o maior estudo epidemiológico sobre o coronavírus no país, que foi coordenado pelo Programa de Pós-Graduação em Epidemiologia da UFPel. Ao todo, 45 mil gaúchos em nove cidades receberam os entrevistadores. Até o momento, foram realizadas dez rodadas da pesquisa e a décima primeira já foi encomendada pelo governo estadual, mas ainda não há data de realização. O coordenador do estudo e ex-reitor da UFPel, Pedro Hallal, reconhece a importância do instituto. “O IPO construiu uma relação muito sólida com as instituições de ensino do Estado e após a pesquisa sai preparadíssimo para fazer inquéritos epidemiológicos. Uma equipe de profissionais responsáveis e que cumprem seus prazos. Nossa experiência de trabalho foi espetacular, a competência com que a Elis comanda o instituto junto com sua equipe é de tirar o chapéu”, comenta Hallal.
Para Carla Rech, ex-professora do Instituto de Filosofia, Sociologia e Politica da UFPel, o IPO representa a importância da pesquisa e do conhecimento cientifico, em um momento apontado por ela como de “descrédito” na ciência, onde muitos possuem opiniões baseadas em experiências de vida e não em dados. “O IPO faz pesquisas com método, rigor e análises que permitem fazer afirmações sobre a realidade e por isso seu reconhecimento nacionalmente. Na era das fake news e da desinformação, ter um instituto como ele é uma garantia de termos dados qualificados sobre o que acontece na realidade”, comenta Carla.
Já o professor do Programa de Pós-Graduação em Politica Social e Direitos Humanos da UCPel, Renato Della Vechia, diz que o instituto se consolidou em um mercado com dificuldades de permanecer devido a sazonalidade dos processos eleitorais, momento importante para empresas de pesquisa. “O instituto, conseguiu se manter e crescer nesse espaço através de sua experiência com pesquisas eleitorais, de mercado e na busca de opiniões sobre políticas públicas. Em um momento em que a simples opinião nas redes sociais muitas vezes suplanta a realidade, torna-se cada vez mais relevante a atuação de empresas como o IPO, que buscam informações confiáveis”, comenta Della Vechia.
A mulher à frente do IPO
Nascida no interior de Pelotas e filha de pequenos agricultores rurais, Elis Radmann veio para a cidade em 1974 com apenas um ano de idade quando sua família foi trabalhar na feira livre. Criada pelos avós, aos 14 anos já era a pessoa com mais estudo da família e que por isso precisava trabalhar para se custear. Sua primeira oportunidade de emprego foi na livraria Princesa do Sul, onde ficou dos 15 aos 20 anos. Em paralelo, se matriculou para cursar o Ensino Médio na Escola Estadual Nossa Senhora de Lourdes. “Não tínhamos muito acesso à informação, nosso único livro em casa era a Bíblia e ainda escrita em Alemão. Para quem gostava de aprender como eu, a livraria foi uma escola onde pude me desenvolver muito”, comenta Elis. Ela ainda lembra que enquanto trabalhava, havia uma cliente que ia ao estabelecimento esporadicamente e se apresentava como esposa de um embaixador que trabalhava em Rio Branco, Brasília.
Suas compras sempre eram feitas com Elis. Durante conversas, a mulher disse que ela poderia se tornar cientista social e ir trabalhar na capital do país junto com seu marido e aí surge o interesse na área.
Após terminar o Ensino Médio, Elis presta seu primeiro vestibular e é aprovada na UFPel para o curso de Ciências Sociais. Ela relembra que por falta de recursos econômicos e tempo, não foi possível fazer um curso pré-vestibular. Sua preparação foi com a ajuda de alguns professores que, sabendo de suas intenções, contribuíram com seu aprendizado. Ao ingressar na universidade se dedicou em projetos e pesquisas até sua formação, quando utilizou sua experiência para a fundação do Instituto de Pesquisas e Opinião.
Atualmente, Elis está com 48 anos e é mãe de dois filhos, a Vitória Radmann de 17 anos e do pequeno Carlos Radmann de dez. Casada há 21 anos com Martinho Orso, tem a ajuda do marido na organização do instituto, onde há 18 anos atua na direção da empresa.
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